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Narcisismo individual e coletivo, a verdade e a realidade brasileira atual*

Não se saiba mais dizer o que é e com quem está a verdade, logo, fez emergir os conflitos*

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O filósofo brasileiro, Luiz Felipe Ponde, ao ser perguntado pela jornalista Thaís Oyama, no programa “Linhas Cruzadas”, da TV Cultura, sobre onde, “com quem está e quem determina a verdade hoje no Brasil”, respondeu sem titubear que é o “judiciário”. Partindo desta premissa, vamos entender o que está por trás dessa afirmação para fazermos uma reflexão que possa, a partir do individual, construirmos uma saída para este “mal”. A democracia brasileira, e a atual no mundo, permitiu não só o acesso ao conhecimento de toda ordem a todos, mas também permitiu que as pessoas tivessem voz ao invés de só votar. Com a proliferação das opiniões, as narrativas sobre fatos, pessoas e instituições, circulam mais, mais rápido e com maior abrangência. Isto faz com que não se saiba mais dizer o que é e com quem está a verdade, logo, fez emergir os conflitos. A pergunta crucial é: quem media os conflitos e estabelece uma decisão de ganho ou perda numa democracia? Justamente o poder constituído legalmente para isso – o judiciário.  Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o judiciário brasileiro, somente em 2022, julgou 26,9 milhões de causas e tinha em tramitação, outras 81 milhões. O Supremo Tribunal Federal (STF) julga, de forma colegiada, uma média de 8 mil processos por ano e mantém um estoque de tramitação de pelo menos 22 mil. Esses dados mostram como somos uma sociedade litigante, “briguenta”, que estamos com desacordos tão profundos que precisamos de um árbitro para nos socorrer e nos manter dentro das regras do “jogo”. A difusão de manifestações de ideias criam várias coisas, como: 1. maior visibilidade do emissor da ideia, 2. rejeição ou apoio a tal ou tais ideias e, 3. união em torno dessas ideias ou opiniões. Isso tudo, por sua vez, cria o narcisismo individual e/ou coletivo.  O narcisismo é um conceito criado por Freud é aplicado a um modelo de comportamento que leva o ser humano a ser focado em si e nas suas necessidades em detrimento dos demais ou, às vezes, das regras de boa convivência que existem no seu entorno. Na linguagem comum brasileira, alguém “mimado”, que quer vencer a qualquer custo, inclusive vencer um debate ao custo da verdade, ter a “vitória pela vitória” e satisfazer seu ego – de forma individual ou grupal. O filósofo sofista da Grécia Antiga, Protágoras, pensando sobre a verdade, disse: “O homem é a medida de todas as coisas, daquelas que são enquanto são, e daquelas que não são enquanto não são”.Na democracia o relativismo está tão acerbo, que, em meio a profusão de informações e narrativas, não conseguimos mais determinar o que é o que não é, ao mesmo tempo em que, a depender de quem fala, até o que não é é, e o que é não é. Como resolver esse impasse que tem feito com que sejamos reféns de um grupo de juristas que possuem um modo específico de ver o mundo, e com lado partidário claro? Simples e complicado. Precisamos nos pautar pelo verdadeiro desenvolvimento pessoal. Qual é? Na minha visão, desenvolver-se pessoalmente, não é me acrescer com o grupo que acredita no que eu acredito, não é o eu crescer, e sim o eu se tornar para além de mim e do meu grupo, considerando a realidade diversa que me cerca. Não é me tornar um relativista, mas entender que eu não tenho a solução para o mundo, e sim que eu tenho a solução para mim. Sempre que eu tenho a ideia “solucionativista” para o mundo, como a tiverem muitos pensadores como Marx, haverá quem vai crer nessa ideia, brigar por ela, assumir o poder e tentar impor ela e, isto, ao custo de milhões de vida até – como já houve na história.  Viver bem, desenvolver significa me expandir até onde dá, com o que tenho ou com o que posso conseguir, mas sem fazer dos outros instrumentos para essa minha ascensão. Em suma, significa agir respeitando a dignidade humana, baseada na constatação que cada ser humano tem valor em si e não pelo que podem oferecer, ou pior, me oferecer. Ou seja, nos vermos como iguais na humanidade e diferentes no ser humano. A riqueza de viver não consiste em haver mais sobre mim no mundo, e sim que eu passe a ver todo o mais a respeito de todos que existem. 

Pense sobre essa possibilidade.

*Texto: Fernando Pereira, jornalista, bacharel em Filosofia e mestrando em Ciências Políticas pela Unilogos University.*

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